quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um pseudofim

A noite de quarta estava gelada.

Mais ainda estavam as cervejas* que eu tinha deixado preparadas, antes de sair de casa, no final da manhã.

Erdinger, weiss alemã.
Licher weizen, também alemã.
Strong Gold Ale, Eisenbahn, brasileira boa

Cada uma com seu copo. Cada uma a seu tempo.

Era para celebrar (?) o fim de uma fase da vida. Um tempo que, por mim, durava até o dia que eu ficasse completamente insano, e sem condição motora alguma. Um pouco de drama meu, outro tanto de "contrariação" por estar sendo praticamente forçado a mudar o rumo.

Se tem coisa que gosto na vida, além de cerveja boa, além de amigos, é ser repórter. E é o que não vou ser mais,a partir de hoje, e possivelmente por um bom tempo. Ao menos não full time, como era até há pouco, 14 de julho, quando saí da redação de AN andando miudinho, arrastando os pés, como que numa despedida pela metade.

Mudei, na prática, de função. Passei o dia e a noite - com as cervejas, claro - remoendo desde o começo de 2001, quando comecei, eufório, no O Estado, hoje completamente destruído. E lembrando.

Do presidente da Câmara de Piçarras com o pescoço vermelho com uma matéria sobre uma CPI de lá
Do doutor Welson de Blumenau, que receitou sexo para quem queria muita fluoxetina
Da minha primeira capinha do "OE Fim de Semana", com um texto que hoje eu tenho vergonha até de ler.
Dos bafões em Barra Velha, quando até esvaziaram os pneus do meu carro.
Dos motoristas e fotógrafos besteirentos e parceiros, quase todas as vezes.
Do calafrio e taquicardia que senti numa casa semi-abandonada do Jardim Paraíso, na noite que dormi (?) por lá.
Dos pedidos sofridos que nem eu, nem minha caneta nem meu bloco seriam capazes de atender, tamanha a ineficácia do poder público.
Da catinga das minhas roupas usadas durante a cobertura das enchentes
E do cheiro de falta de banho e dentes escovados dos abrigos que visitei pelo mesmo motivo.

Lembrei de outras tantas coisas que estarão no meu obituário, ou epitáfio, ou desastrosa autobiografia, num quem sabe um dia.

Mas me doía mesmo pensar que aquela baita história eu não vou mais contar. Elas não aparecem todos os dias. Na verdade, a proporção de quinquilharias nesse baú de pautas é muito maior. Mas é que nem promoção, balaio. Revirando no meio da cacalhada sai uma coisa boa, e tudo parece valer o esforço.

Emocionalmente, ao menos. É assim que as empresas de comunicação seguram jornalistas dedicados: alimentam o tamaguchi, deixam a paixão pela coisa, que vem do berço, fazer de conta que tampa o rombo no bolso.

Já doeu mais. Alguma coisa me diz (talvez eu mesmo) que nunca vou deixar de fazer isso. Conversar, conhecer, criar. Taí. Gosto desses três verbinhos juntos. Talvez com um quarto, junto: discordar.

Como diz o CD da Alva, banda de um amigo e tanto, ah... que saudades do futuro!


* // Cervejas boas são outra mania, além de cama arrumada. Só que mais forte.Tenho fama de pão duro, mas com cerveja boa, isso vai para o espaço. Acho que é meu luxo. Ser mestre cervejeiro artesanal seria um dos meus planos para tantas vidas que poderia viver nesta aqui //

Um comentário:

Upiara Boschi disse...

Confia no teu perfil. Você nunca será o editor que só conhece o caminho entre o jornal e a casa. Até porque tem muito bar no caminho...
Sorte!